RFID vs. código de barras na farmácia hospitalar: onde cada tecnologia é bem aplicada
O que está em jogo quando a identificação falha
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária mantém desde 2018 o VigiMed, sistema nacional de notificação de eventos adversos relacionados a medicamentos, incluindo erros de prescrição, dispensação e administração. Segundo o Boletim de Farmacovigilância da Anvisa, entre janeiro e outubro de 2019 a agência recebeu 2.771 notificações de erro de medicação, um aumento de 64,5% em relação ao mesmo período de 2018 (1.684 notificações) e de 218% em relação a 2017 (871 notificações).
O salto não significa necessariamente que os hospitais brasileiros erram mais a cada ano. Significa, no mínimo, que o sistema de notificação amadureceu e que mais instituições passaram a registrar o que antes não era formalizado. De qualquer forma, o volume mostra que erro de medicação não é uma exceção estatística: é um problema recorrente, monitorado oficialmente, e que segue crescendo em número de registros.
A identificação incorreta é uma das portas de entrada para esse tipo de erro. Um estudo de 2004, que analisou 474 prescrições hospitalares brasileiras e é frequentemente citado em revisões posteriores sobre erros de prescrição no país, identificou omissão de dados de identificação do paciente em 27,52% dos casos com erro de redação.
Os dois números vêm de bases diferentes e não podem ser somados ou comparados diretamente. Um mede notificação de evento adverso em nível nacional, o outro mede erro de prescrição em uma amostra específica de 2004. O que os dois indicam, cada um a seu modo, é que o ponto de falha de identificação existe há muito tempo no sistema hospitalar brasileiro e continua sendo registrado.
Como cada tecnologia captura a informação
Código de barras e RFID resolvem o mesmo problema de identificação por caminhos tecnicamente diferentes, e essa diferença é o que determina onde cada um se paga.
O código de barras exige uma linha de visada direta entre o leitor e a etiqueta. Cada item precisa ser posicionado e lido individualmente. Isso significa tempo de operador por item, e significa que um código de barras impresso com falha, manchado ou colado em ângulo errado simplesmente não é lido, a conferência para nesse ponto até alguém intervir manualmente.
O RFID não depende de linha de visada. Uma antena consegue ler múltiplas etiquetas ao mesmo tempo, a distância, sem que o operador precise posicionar cada item individualmente diante do leitor. Um estudo apresentado no Encontro Nacional de Engenharia de Produção em 2019, que analisou a implantação de RFID em dois hospitais brasileiros, descreve casos de uso reais: controle de itens de leito, controle de enxoval, controle de medicamentos de alto custo e controle de equipamentos médicos, com integração ao sistema ERP de uma das instituições. Um dos hospitais analisados usa etiquetas ativas com rede Wi-Fi, o outro trabalha com integração direta ao ERP hospitalar, o que mostra que não existe um único modelo de implantação, e sim adaptações à realidade de cada operação.
Essa diferença técnica tem um efeito direto na farmácia: onde o código de barras exige que alguém pare, posicione e leia item por item, o RFID permite conferência em lote. Isso não torna uma tecnologia superior à outra em qualquer contexto. Torna cada uma mais adequada a um tipo de volume e de risco.
Critérios para decidir, não para copiar do hospital vizinho
Antes de qualquer cotação, os critérios abaixo ajudam a localizar em qual ponto do espectro a sua operação está.
- Volume de itens movimentados por turno. Uma farmácia que separa e confere algumas dezenas de itens por turno sente menos o ganho de velocidade do RFID do que uma que movimenta milhares.
- Criticidade do item rastreado. Medicamento de alto custo, controlado, ou usado em terapias que não toleram erro de dispensação pesa a favor de uma camada extra de segurança na identificação.
- Orçamento disponível para infraestrutura de leitura, não apenas para a etiqueta. RFID exige leitor, antena e, em alguns casos, integração de software mais robusta do que a que um código de barras exige.
- Maturidade digital da equipe operacional. Uma equipe já habituada a processos automatizados absorve a curva de adoção de forma diferente de uma equipe que ainda opera majoritariamente manual.
- Exigência de auditoria ou acreditação. Instituições que precisam demonstrar rastreabilidade completa para acreditação hospitalar tendem a encontrar no RFID uma resposta mais direta a esse requisito, embora código de barras bem implementado também sustente auditoria em operações menores.
Um levantamento do ILOS (Instituto de Logística e Supply Chain) mostrou que, em 2016, 30% dos hospitais brasileiros pesquisados já tinham RFID implementado para controle de estoque, 19% não tinham mas pretendiam implantar, e 52% não tinham e não pretendiam implantar (fonte: ILOS, 2016). Não localizamos, até o fechamento deste artigo, um levantamento nacional mais recente com a mesma abertura de dados sobre adoção de RFID em hospitais brasileiros.
Onde cada tecnologia se paga
O código de barras continua sendo suficiente, e financeiramente mais racional, para uma fatia real das farmácias hospitalares brasileiras: operações de volume baixo a médio, com itens de criticidade padrão e equipe já adaptada ao processo. Trocar essas operações para RFID sem outro critério além de "é mais moderno" costuma gerar investimento sem retorno proporcional.
RFID se paga quando pelo menos dois dos critérios acima pesam junto: volume alto, item crítico, exigência de auditoria robusta. Nesses cenários, o ganho de velocidade e a redução de pontos de falha manual tendem a justificar o investimento adicional em infraestrutura de leitura.
Não existe resposta genérica que sirva para todos os hospitais. Existe, sim, um conjunto de critérios que qualquer gestor de farmácia hospitalar ou de TI consegue aplicar à própria operação antes de pedir cotação a qualquer fornecedor, PGS incluída.
Se a sua farmácia hospitalar ainda não passou por esse mapeamento, o Diagnóstico PGS avalia a operação real antes de qualquer recomendação de tecnologia.
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Perguntas frequentes sobre RFID e código de barras na farmácia hospitalar
RFID substitui completamente o código de barras em um hospital? Não necessariamente. Muitas instituições operam os dois em paralelo, usando RFID em itens de alta criticidade ou alto volume e mantendo código de barras onde o custo adicional não se justifica.
Qual tecnologia exige mais investimento inicial? RFID costuma exigir mais investimento em infraestrutura de leitura, como antenas e leitores, além do custo por etiqueta. O código de barras tem menor custo de entrada, mas gera mais tempo de operador por item movimentado.
RFID hospitalar é uma tecnologia nova no Brasil? Não. Levantamento do ILOS já registrava adoção relevante em hospitais brasileiros em 2016, e estudos acadêmicos publicados em 2019 documentam implantações reais em instituições nacionais.
Como saber se a minha farmácia hospitalar precisa de RFID? Os critérios mais relevantes são volume de itens movimentados por turno, criticidade dos itens rastreados, orçamento disponível para infraestrutura e exigência de auditoria ou acreditação. Um diagnóstico da operação real costuma ser mais confiável do que comparar apenas o preço das etiquetas.
Fontes:
Anvisa, Boletim de Farmacovigilância, dados de 2019
Neri, 2004, citado em revisão sistemática publicada na Research, Society and Development
Análise do uso da RFID nas operações em dois hospitais no Brasil, ENEGEP/ABEPRO, 2019

